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Mimo Steim apresenta a si mesmo como um jovem artista tecnológico. O artista teria produzido algumas instalações interativas e trabalhos de arte na rede Internet – web arte. Há um misto de ingenuidade e excesso de pretensão nos textos em que se apresenta; autoproclama-se como um dos mais importantes artistas tecnológicos brasileiros, o que certamente não seria ratificado por nenhum especialista. Suas obras possuem títulos estrambólicos, como se o título em si fosse capaz de emanar toda a carga poética de um trabalho. Suas experimentações em web arte se parecem com as primeiras incursões no gênero, propondo composições de imagens sobrepostas, mapeadas por links; assemblages com pouco rigor estético. Busca escrever textos que denotam uma condição diferenciada de sua posição como artista, como se essa constatação lhe provesse algum tipo de status social. Em uma de suas frases recorrentes busca resumir a sua própria existência em uma condição estética: “eu sou arte”.

Tela da teleperformance "O artista estah telepresente".

Em determinado momento, Mimo resolve se distanciar do convívio pessoal “direto” através da proposição de uma “teleperformance” na qual permaneceria ininterruptamente online conversando com interlocutores através de uma sala de bate-papo presente em seu site pessoal, chamada de O artista estah telepresente (2013). A referência é clara ao conhecido trabalho de Marina Abramovic, The artist is present, no qual a artista permanece por dois meses no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, em 2012, mantendo-se diante de seus visitantes. Por sua vez, Mimo Steim acrescenta a ideia da telepresença, termo familiar aos anos 90 do século XX, que foi amplamente utilizado para designar ações e transmissões de imagens à distância, tendo por fator chave o tempo real, induzindo-nos a proposições dialógicas que suplantam a distância física entre os pontos envolvidos.

Mas, ao contrário do que é intuído ao pensar em obras em meios tecnológicos, Mimo relativiza o protagonismo daqueles que o contatam em tempo real: sua atuação no bate-papo é (em regra) irônica, situando aquele que está em diálogo como um “figurante” – inspirando-se na ideia da “Sociedade dos figurantes” de Nicolas Bourriaud mencionada em Estética Relacional, que discute a instauração da ilusão de sermos os reais senhores de uma sociedade que cultuaria nossa participação.

As táticas em torno de Mimo Steim se estenderão para a sua exibição em 2013, na Exposição Em Meio # 5.0: Prospectiva Poética acontecida no Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, em Brasília, e também na primeira edição do Festival de Arte, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (FACTORS), entre os dias 20 e 22 de agosto de 2014, na cidade de Santa Maria, RS. Nas referidas exposições foi apresentada uma instalação que consistia na projeção da “teleperformance” de Mimo Steim e a possibilidade de dialogar com o artista por meio de um teclado. Na exposição realizada em Brasília, o resumo afixado próximo à área de projeção, enviado pelo autor, limitava-se a descrever a circunstância aparentemente dada:

Atuando via web em uma espécie de “teleperformance”, na qual condicionaria todas as suas relações humanas aos novos meios, o artista tecnológico Mimo Steim está permanentemente a disposição para conversar com qualquer interlocutor, em tempo real. O artista opta por um comportamento irônico e interrogador, ora tentando desconstruir seu interlocutor, ora questionando sua relevância. Para se comunicar com Mimo, basta conversar em seu chat.

A ação acaba por se basear na presunção de um estado “performático” em tempo integral – da capacidade do artista em manter-se permanentemente “em cena”, o que busca elevar qualquer conversa – por mais despretensiosa que seja, em um potencial acontecimento estético. Assim, as relações estabelecidas por Mimo Steim via bate-papo em rede estão pautadas pelo seu caráter provocativo: tenta conduzir seu interlocutor ora por incessantes e intrincadas perguntas, ora por relativizar a importância do visitante diante da sua suposta genialidade, e enfaticamente se distanciando de qualquer suposição de que ele seja um robô. Em alguns momentos apresenta-se como “um artista que se passa por robô” para justificar seu comportamento estranho ou algumas respostas repetidas, mas sempre se distanciando da objetividade, docilidade e, mesmo submissão a que costumamos vivenciar nas relações entre humanos e máquinas.

Trabalho apresentado na Exposição Em Meio # 5.0 no Museu Nacional do Conjunto Cultural da Repúbica, Brasília, em 2013.

Seria ele um robô-artista ou um artista-robô? Quanto de nossa subjetividade é contaminada pela previsibilidade e sistematização próprias das máquinas ou quanto daquilo que temos de mais subjetivo transparece em máquinas cada vez mais humanizadas? Neste caso, especificamente, cabe revelar que toda conversa com Mimo Steim é automática. Mimo é, na verdade, um robô de conversação – um chatbot – baseado em Linguagem de Marcação de Inteligência Artificial (AIML) capaz de simular uma conversa como as estabelecidas entre seres humanos. Foi desenvolvido como parte da pesquisa de pós-doutoramento de Fábio Oliveira Nunes sob o título “Mimetismo: Estratégia relacional em arte e tecnologia” como o apoio da FAPESP.

Após dois anos de diálogos e aperfeiçoamentos em sua base de conhecimento, Mimo Steim passa a possuir mais de 45.000 termos (e conjugação de termos) associados a respostas, distribuídos em mais de 220.000 linhas de código – o que, apesar do caráter rudimentar desta tecnologia frente a outras aplicações em inteligência artificial, proporciona uma experiência razoável de conversação, levando em conta que o robô possui muitas respostas propositalmente ambíguas.

Para acessar o site de Mimo Steim, acesse www.fabiofon.com/mimo .

Trabalho apresentado no Festival de Arte, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (FACTORS) em agosto de 2014.