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Texto especialmente produzido para o Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em maio de 2003, sobre o filme Matrix Reloaded (EUA, 2003). O terreno de Matrix é a possibilidade das escolhas: no primeiro filme, a célebre cena na qual Morpheus oferece a Neo as duas pílulas – azul e vermelha – demonstra isso com facilidade, escolher, eis a questão! Mesmo filme, há também a passagem na qual o oráculo coloca a Neo que ele terá que escolher (novamente) entre a sua própria vida e a de seu fiel companheiro Morpheus. Mas porque tantas escolhas? Ora, desde o advento da Internet, o indivíduo humano se coloca frente de mecanismos que privilegiam a escolha, o poder de seguir o caminho que bem entender e não simplesmente ser um elemento passivo frente ao lhe é colocado: o que é a Internet senão uma teia de escolhas, escolhas nas quais você deve fazer a cada link a ser clicado ou não? Mesmo na TV, surgem programas nos quais as escolhas passam a ser o centro de atenção, programas nos quais você – ou uma coletividade – define que filme assistir ou que fim deverá levar a história em voga. Isso é interagir. E a possibilidade de escolhas lhe faz um sujeito teoricamente ativo, dono do seu destino. Mas será mesmo? Será que as escolhas me fazem senhor do meu próprio destino? Essa é uma das questões de “Matrix Reloaded”, no qual é visível, o questionamento de Neo frente a sua acepção de messias ou mesmo, na possível previsibilidade de suas ações, o que é de maneira muito interessante, colocado no seu encontro com as duas entidades maiores de Matrix (uma, inclusive que já conhecemos do filme anterior). A previsibilidade de suas ações refletem a previsibilidade das ações humanas, frente a lógica de probabilidades e cálculos das máquinas numéricas dominantes do mundo pós-apocalíptico de Matrix. Aí a questão colocada é: será que temos realmente escolha?
Ao passo que essas questões aproximam inteligência humana da inteligência artificial, o filme se distancia muito mais das bipolaridades entre o real e o ilusório (ou simulado, numa linguagem mais específica). Não mais temos a discussão entre as duas realidades e suas diferenças – até porque, neste filme, a questão central encontra-se no mundo real: a possível invasão da cidade de Zion, pelas máquinas. Alías, Zion merece uma atenção especial, uma cidade de antagonismos: são desenvolvidos tecnologicamente mas permanecem num estado de imanência do instinto, das crenças e da sensualidade, nossas heranças mais primitivas. Mas no mundo de Matrix, onde para nós – exigentes espectadores – o que conta mesmo é descobrir suas brechas e perverter o sistema, temos os efeitos especiais – dois mais especiais – que serão certamente datados, colocados novamente para a posteridade: Neo luta com uma centena de clones do agente Smith ao mesmo tempo. É algo inimaginável, sem dúvida. E ainda, a queda de Trinity de um edifício quando perseguida por um dos agentes: a mesma manipulação de tempo congelado do primeiro filme, com alguns aperfeiçoamentos. Essas cenas, nos enchem os olhos, pelo seu caráter fantástico, impressionam verdadeiramente, mas, infelizmente isso ocorre em detrimento do conteúdo ciberpunk, louvável no primeiro filme e tímido nesta continuação. As atitudes ciber-revolucionárias de Neo conquistaram adeptos em todo o mundo: surgem inúmeros livros e sites na Internet que discutem o conteúdo social e mesmo, político, num sentido mais amplo, do filme. Porém, isso ficou para trás. A estética agrada mas não engrandece. Essa foi a escolha de “Matrix Reloaded”. Fábio Oliveira Nunes
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